Não sei mais falar de “amor”, muito menos escrever “cartas de amor”. A verdade é que eu não entendo ou simplesmente não sei o que é esse tal de “amor” que todo mundo fala, esse aí, cheio de subjetividades, obscuridades e reticências. Talvez eu já tenha pensado demais sobre essas coisas e perdido a paciência, como me é de costume, ou tenha desistido antes de perceber essas entrelinhas, que me parecem, às vezes, ser a grande graça dos amantes. No ápice da minha descrença das coisas sobrenaturais como alma, espírito e qualquer outra coisa do gênero, amor não tem mistério. Na minha humilde sinceridade, é apenas fruto de reações bioquímicas, do nosso metabolismo, que não convém descrever. Não consigo discernir perfeitamente a influência dos fatos que me ocorreram durante a vida, os quais me fizeram chegar à conclusão de que detesto drama, e, principalmente, as chorumelas desse amor bonitinho das comédias românticas hollywoodianas. No entanto, ainda caem algumas lágrimas de vez em quando (e muito de vez em quando mesmo), por algumas situações que podemos chamar de banais.
Quero deixar claro que isso não é uma defesa de um tipo de “abordagem” amorosa. Afinal, depois de todo esse tempo que costumo chamar de “O tempo em que tomei consciência das coisas”, uma simplificação irritante do período que lembro ter começado a pensar direitinho sobre tudo que me vem, procurei, a muito custo das coisas que me tiraram do sério, desenvolver um senso de diplomacia. Já fui ateu ativista, mas hoje, para mim, cada um tem o direito de tomar as decisões que lhe deixe confortável.
Foi a partir dessa ideia, aprendida de um grande amigo, que muito de mim começou a mudar. Passei a exercitar minha mente para ser o mínimo passional possível, embora não possa garantir, por exemplo, que toda essa divagação seja perfeitamente racional, dúvida que não me incomoda. Não sei se foi um escudo contra minhas vulnerabilidades, ou se foi para cicatrizar feridas passadas. Hoje, gosto de pensar que ando de peito aberto, sem armaduras, porque minhas próprias fraquezas não me amedrontam. Mas, pra falar a verdade mesmo, a grande mudança ocorreu há pouco mais de seis anos. Possivelmente, foi a chave para toda essa felicidade que sinto nesse momento. Não havia dito antes, mas sou feliz. Como eu poderia, se decidi “congelar” meu sentimentalismo, dizem as pessoas? Pois é, sou mesmo, bastante. E graças a alguém que lutou por mim, que não teve medo, e quebrou, diremos assim, os alicerces da minha “ignorância”. Sério, eu era praticamente um zumbi naquela época. Depois de idas e vindas, finalmente ficamos juntos e estamos até hoje. Nesse tempo, mudamos e aprendemos mutuamente. Óbvio? Não. Ninguém nunca vai saber. Nunca.
Dizem que a gente briga muito, mas não seria tão bom se não houvesse essa diferença. Eu sou assim mesmo, e ela também. Eu impaciente, ela agressiva. Uma bomba relógio? Com certeza. Já explodiram várias. E estamos vivos, unidos, cada vez mais. Já passamos por tormentas, quase naufragantes (vide 2010), mas como eu havia dito no início, não há mistério no amor. Provavelmente, alguns poderiam achar que eu não amo, mas esse seria um ato falho. Amo sim, com todas as minhas forças, sem doença, sem exagero, em doses homeopáticas. Posso ter dado sorte, mas acredito que, no final das contas, foi apenas o que sempre busquei, e logo no momento em que desisti da esperança. Procuro não esperar mais nada, de ninguém, principalmente dela. Mas ela sempre sempre está à minha frente. Se nunca fui romântico (cuidado com a interpretação), ela me dá vontade de ser. E é assim pra quase tudo.
Há pouco tempo, resolvi tomar decisões que mudaram drasticamente minha vida e todos os planos que viemos fazendo durante muito. Só recebi apoio incondicional. Venci essa batalha, ou melhor, vencemos, para começar outra com a mesma força e vontade que só ela pôde me dar. Todos os meus planos são pensando nela. Não consigo mais viver de outra forma. Realmente, desmistificou tudo na minha cabeça, tudo ficou mais fácil.
Hoje ela faz vinte e cinco anos. Merece, mais do que tudo, ser muito feliz. Sei que ela será extremamente bem sucedida na maioria de suas empreitadas. É de se admirar. Só teve grandes conquistas até então, o que me dá confiança pra visualizar esse futuro. E isso não é esperança, é probabilidade. Quero muito fazer parte disso tudo, com ela, por ela. Agradeço por todo tempo, toda dedicação, companheirismo, amizade, todas essas coisas fundamentais a um relacionamento maduro, duradouro e “confortável”. Serei eternamente grato pelo que ela me ajudou a enxergar, por todas as vezes que ela simplesmente quis dizer: “seja”. E eu tentarei sempre.
É… acabei de escrever uma carta de amor.
P.S.: Um dia ainda vou retribuir…